O pânico levou à submissão voluntária da população ao confinamento imposto pelas autoridades

Contrariamente ao que tem acontecido no Brasil e em algumas regiões dos Estados Unidos, onde a população tem saído às ruas para protestar contra o confinamento, o que o pânico tem conseguido na Europa até o momento é uma atitude submissa das populações diante das severas restrições à liberdade de movimento impostas pelas autoridades.

Num país habitualmente rebelde como a França, 96% das pessoas consultadas aprovaram as medidas de confinamento ditadas pelo presidente Emmanuel Macron, no dia seguinte ao seu anúncio, e 85% lamentaram que não tivessem sido impostas antes! Isso se verificou apesar da perfeita consciência da população quanto aos sacrifícios financeiros que decorriam do confinamento.74 O mesmo aconteceu na Espanha, onde uma sondagem solicitada pelo jornal El País75 revelou que apenas 21,9% acham que “deve-se flexibilizar o confinamento para reativar o quanto antes a economia, mesmo que isso suponha uma maior propagação do coronavírus”; e 59,3% dos entrevistados sustentaram que “deve-se manter ao máximo o confinamento, mesmo que isso suponha uma maior deterioração econômica e mais desemprego”. Na opinião deles, um impacto na economia será negativo e duradouro em nível mundial (61,1%); para a Espanha (69,7%); e para o próprio lar dos consultados (31%).

Sob o título “Nos países ricos a saúde permanece a prioridade”, o jornal Le Figaro informa que, “segundo uma sondagem Kantar realizada entre os dias 9 e 13 de abril no Canada, França, Alemanha, Itália, Japão e Estados Unidos, 37% da população perdeu uma parte das rendas, e 16% as tiveram amputadas pela metade. Entretanto, uma ampla maioria dos sondados continua a aprovar as dispendiosas medidas adotadas para lutar contra o vírus”.76

Mais grave ainda, o pânico favorece a aceitação prévia, pela população, da chantagem que está sendo proposta para sair do confinamento: submeter-se ao controle estatal através de aplicativos nos telefones celulares, que indicará às pessoas se elas estiveram em contato com alguém contaminado pelo coronavírus.

Uma pesquisa realizada na França por uma equipe da Faculdade de Economia da Universidade de Oxford revelou que cerca de 80% das pessoas interrogadas (mil possuidores de celular) declararam que, sem nenhuma dúvida ou provavelmente, instalariam tal aplicativo se ele fosse disponibilizado. A maioria estaria até mesmo de acordo em que as companhias telefônicas instalassem automaticamente o aplicativo nos celulares de seus clientes (com a possibilidade de desinstalação), e 2/3 dos interrogados declararam que, provavelmente ou sem dúvida, manteriam o aplicativo instalado pelo fornecedor.

É tal a aprovação dessa chantagem (liberdade de movimentos c/ controle), que até 40% dos interrogados passariam a ter uma opinião mais favorável ao governo Macron se esse instrumento de vigilância estatal fosse colocado à disposição deles! Os pesquisadores informam que esses resultados são amplamente similares aos obtidos na Alemanha, Reino Unido e Itália.77

A “Síndrome de Estocolmo” em escala planetária. Uma infestação diabólica coletiva?

A velha estratégia do garrote e da cenoura está obtendo resultados que alguns meses atrás seriam inimagináveis, mudança esta resultante apenas do pânico induzido pela Covid-19, e pela sensação de segurança resultante das promessas dos governos de abrir as torneiras do financiamento público para garantir rendas aos particulares e a solvência das empresas. “O que se verifica, neste momento, é o fortalecimento do Estado como força protetora dos cidadãos”, sugere a revista Isto é no seu artigo já citado, que leva o expressivo título: “A nova ordem mundial”: “O Estado volta a ser a grande força protetora, a única capaz de criar um sistema robusto para dar segurança ao cidadão, garantindo a saúde, a educação e o incentivo à pesquisa científica”.78

A ingenuidade chega ao ponto de as pessoas aceitarem com apatia uma versão apresentada pelas autoridades comunistas da China, como sendo modelo de sucesso no controle de uma pandemia resultante de suas próprias atitudes irresponsáveis, quando não criminosas. Por exemplo, ninguém reagiu quando o boletim UN News, produzido pela própria ONU, noticiou em sua edição de 16 de março: “China mostra que o coronavírus Covid-19 pode ser detido”. E transcreve o que afirmou que o representante da OMS naquele país: “Esta lição de contenção é uma lição que outros países podem aprender e adaptar às suas próprias circunstâncias”.79 Ora, todo o mundo sabe que na China a população está submetida a políticas oficiais de controle social, por meio de programas de identificação facial e de cotação da população, levando a prêmios e castigos.

Como é possível entender que as massas do Ocidente, embriagadas até três meses atrás com os valores de emancipação, autonomia e individualismo, aceitem a perspectiva de um controle em estilo chinês de suas vidas, com a passividade de cordeiros rumo ao matadouro? Isto revela que elas foram vítimas de uma baldeação ideológica sem precedentes na História da humanidade. Sua reação natural deveria ser a do filósofo Conte-Sponville: “O confinamento é a maior restrição de liberdade que eu tenha vivido; e tenho pressa, como todo o mundo, de sair dele. Em longo prazo, nem se coloca a opção de sacrificar a liberdade à saúde. Prefiro pegar a Covid-19 num país livre, a escapar dele num Estado totalitário!”.80 Aquilo que os ecologistas radicais, os partidos verdes e os manipuladores de Greta Thunberg só conseguiram muito parcialmente (com base em projeções apocalípticas das consequências do propalado aquecimento global supostamente antropogênico), o pânico do coronavírus e as cantilenas protetoras dos governos, “em estado de guerra” contra a pandemia, obtiveram após menos de dois meses de confinamento da população. Essa situação “faz as pessoas experimentarem uma espécie de prisão domiciliar, ainda não vivida nas sociedades contemporâneas”, como bem disse a revista Isto é.81

Tratar-se-ia de uma versão planetária da Síndrome de Estocolmo, pela qual a vítima de um sequestro desenvolve uma relação de cumplicidade e forte vínculo afetivo com seu captor.82 Comprova-o a variação espetacular da popularidade dos dirigentes europeus, apesar de estarem arruinando as respectivas economias com as medidas imprudentes de confinamento: Kurz, Áustria (+33%), Conte, Itália (+27), Johnson, Reino Unido (+20%), Merkel, Alemanha (+11%), Macron, França (+11%).83

A presença de Satã no mundo moderno, publicado por Mons. Léon Cristiani em 1959. Para o autor, a China manifestava sintomas de possessão diabólica, enquanto a Rússia era vítima “apenas” de uma infestação preternatural, mas o Ocidente também se achava sob a influência do Maligno

Em face de um resultado tão fulgurante, profundo e universal obtido por essa manipulação psicológica das massas, um observador católico deve se perguntar se ela não veio acompanhada de uma infestação preternatural coletiva. Uma hipótese análoga foi levantada em relação ao comunismo chinês e russo, no livro A presença de Satã no mundo modernopublicado por Mons. Léon Cristiani em 1959. Para o autor, a China manifestava sintomas de possessão diabólica, enquanto a Rússia era vítima “apenas” de uma infestação preternatural, mas o Ocidente também se achava sob a influência do Maligno.84 Não será o incremento dessa influência um dos fatores da atual passividade da opinião mundial diante da perspectiva de uma ditadura, primeiro sanitária, depois ecológica e socialista, e finalmente ateia?

Um estudo premonitório de Plinio Corrêa de Oliveira sobre a baldeação ideológica inadvertida

Seja qual for a preponderância do fator preternatural nessa passividade, o certo é que ela resultou em boa parte do medo das populações, levando-as a aceitar limitações que normalmente não aceitariam.

Baldeação ideológica inadvertida e Diálogo – O mais recente estratagema comunista para conquistar a opinião mundial, publicado no n° 178-179 de Catolicismo(em outubro-novembro de 1965)

Quem melhor estudou essas manipulações das massas – não do ponto de vista preternatural, mas psicológico e ideológico – foi sem dúvida Plinio Corrêa de Oliveira no estudo BaldeaçãoIdeológica Inadvertida e Diálogo, onde analisa o mais recente estratagema comunista para conquistar a opinião mundial (Catolicismo, outubro-novembro de 1965, n° 178-179).85 Ele descreve o processo pelo qual é possível predispor favoravelmente, e transformar em inocentes-úteis, pessoas refratárias à pregação comunista explícita. E o método consiste em agir nas mentalidades de modo implícitosem que os pacientes percebam que estão sofrendo uma ação psicológica.

Dois fatores tornavam a mentalidade ocidental especialmente vulnerável: o medo e a simpatia pelo comunismo. Aparentemente contraditórios, no entanto ambos atuavam simultaneamente como um binômio, predispondo inicialmente o paciente a uma atitude de inércia resignada diante do avanço comunista, a qual se transformaria depois numa expectativa favorável, e chegaria ao seu estágio final com a transformação da vítima num adepto convicto.

Um processo de baldeação ideológica foi, por exemplo, o que sofreram alguns católicos latino-americanos engajados na Ação Católica, que acabaram adeptos da Teologia da Libertação, e depois militantes de grupelhos de extrema-esquerda voltados para a violência.

Prof. Plinio Corrêa de Oliveira

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira explica que esse processo pressupõe encontrar um ponto de forte impressionabilidade.Por exemplo, “uma desgraça presente, como a fome ou a doença”. Paralelamente é preciso encontrar um ponto de apatia, simétrico ao anterior. No caso atual, vemos o paradoxo de muitos considerarem valor supremo da sociedade a vida dos idosos ameaçados pelo vírus; mas, até pouco tempo atrás, esses mesmos pleiteavam o direito dos idosos à eutanásia. Agora, ainda defendem um abrandamento das leis para que as mulheres confinadas possam abortar em casa ou fora do prazo. Outro exemplo de ponto de apatia é “a insensibilidade ante o fato de que, se contra a fome ou a doença (aqui consideradas como males sociais) se deve fazer absolutamente tudo quanto é possível, de nenhum modo se deve tentar o impossível, o utópico; pois, a prazo mais ou menos curto, isto só agravaria esses mesmos males que se quer debelar”.

Com palavras proféticas, o autor adverte que as soluções devem ser aplicadas “com redobrada solicitude, para evitar que à natural demora da cura se some o censurável retardamento ocasionado por nossa displicência. Mas há que renunciar muitas vezes ao desejo insofrido de resultados imediatos. Esse desejo nos expõe, com efeito, ao risco de preferir, ao invés das soluções autênticas, as panaceias violentas que a demagogia preconiza, eficazes só na aparência”.

Tão atuais são essas considerações (publicadas em 1965), que parecem ter sido escritas ontem a respeito da reação excessiva ao coronavírus…

SANTANA

SANTANA - Jornalista e Bacharel em Ciência Política

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