Consequências econômicas “de proporções bíblicas” e visíveis a olho nu

Vejamos agora outro aspecto do assunto. Ou seja, as consequências econômicas decorrentes das drásticas medidas de confinamento “horizontal” da população, que vêm sendo adotadas num curto período de tempo pelas autoridades nacionais e regionais italianas para conter a epidemia e a saturação das unidades de tratamentos intensivos.

Segundo o Instituto Italiano de Estatísticas, foram suspensas as atividades de 2,2 milhões de empresas, equivalentes a 49% do total. Isso acarretou uma queda de 34% na produção, e de 27% no valor agregado. O número total de funcionários impedidos de trabalhar foi de 7,4 milhões (44,3% da força laboral total), dos quais 4,9 milhões eram simples assalariados (42%).12

Essa paralisação brusca das atividades econômicas acarretará “uma tragédia de proporções bíblicas”, prevê Mario Draghi, ex-presidente do Banco Central Europeu em uma coluna no jornal Financial Times. A maior crise da economia real nos últimos cem anos. Segundo o banco de investimentos Goldman Sachs, o PIB italiano cairá 11,6% em 2020.13 Para Gustavo Boni, funcionário europeu, a contração do PIB italiano será entre 12,5 e 15%; de 85% a queda do estoque bruto de capital fixo; e de 38% a da renda interna do emprego; a dívida pública ascenderá a 160% do PIB, o nível a que tinha chegado a da Grécia quando foi resgatada pela UE.14

Isso somado significa que, após a suspensão do confinamento, milhões de trabalhadores italianos correm o risco de encontrar suas empresas com os portões trancados; e milhares de artesãos e comerciantes poderiam entrar no grande contingente de registros de desemprego ou de falência. Somente na área do turismo (13% do PIB italiano), o jornal econômico Sole24 calcula “quase um milhão de empregos em risco”.15

Maurizio Gardini, presidente da Confcooperative, uma das principais associações de cooperativas peninsulares, declara que a Itália provavelmente sairá do confinamento da população deixando pelo menos 20% das empresas médias e pequenas na lona, perto de um milhão, com consequências indescritíveis em termos de rendas, emprego e paz social.16 Um estudo do organismo italiano de estatísticas (ISTAT) afirma que o lockdown das atividades produtivas gerará “o desmoronamento da confiança dos consumidores e das empresas”.17

A Itália não é um caso isolado. As autoridades da vizinha França tomaram medidas de confinamento semelhantes, baseadas em projeções de contágio e mortes igualmente alarmantes, com consequências similares. Segundo o INSEE (o instituto gaulês de estatísticas), a atividade econômica caiu 36%, sendo que no setor privado a queda foi ainda maior (42%). De fato, 6,9 milhões de assalariados do setor privado estão em casa recebendo a ajuda de desemprego parcial, e o consumo das famílias caiu 35%.18 O economista e historiador Nicolas Baverez afirmou, na sua coluna semanal do jornal Le Figaro, que “dois meses de confinamento deixarão a França com uma queda de 10% de seu PIB, um déficit de 12 a 15% e uma dívida pública de mais de 120% do PIB. Milhares de empresas irão à falência, as menores notadamente, e muitos dos 8,7 milhões de desempregados parciais não reencontrarão seus empregos, tendo como consequência o crescimento da pobreza”.19 (Na realidade, o ministro do Trabalho anunciou que 9,6 milhões de assalariados do setor privado estão atualmente “protegidos” pelo desemprego parcial, o que representa quase a metade dos empregados).20

Segundo o ministro francês de Economia, Bruno Le Maire, o país vai conhecer em 2020 sua maior recessão desde o fim da Segunda Guerra Mundial.21 E o primeiro-ministro Edouard Philippe declarou diante da Assembleia Nacional que o impacto econômico ligado ao coronavírus será “massivo” e “brutal”, suscitando “um choque econômico que todos imaginam, mas cujo impacto total ninguém conhece ainda”.22

Se essas são as previsões para dois países cujas economias estão entre as mais desenvolvidas do mundo, pode-se imaginar qual será o impacto do bloqueio das atividades econômicas por causa do SARS-CoV-2 para o resto do mundo.

O devastador impacto social do “grande confinamento”: a pandemia da extrema pobreza

A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, declarou no dia 9 de abril que serão “as piores consequências econômicas desde a Grande Depressão” de 1929, acarretando uma contração da renda por habitante em mais de 179 países. A alta funcionária acrescentou que os países pobres ou emergentes da África, da Ásia e da América latina “são de alto risco”, tanto mais quanto os capitais estão migrando para fora deles em um ritmo três vezes superior ao da crise financeira de 2008, o que ocasionará problemas de liquidez e de solvabilidade.23

Apenas cinco dias depois, o FMI divulgou suas previsões do que chamou de “o grande confinamento”: uma contração de 3% do PIB mundial em 2020, sendo que os mais afetados pela depressão serão os países europeus (-7,5%) e os Estados Unidos (-6,5%). A eventualidade de uma queda ainda mais brutal em 2021 não é excluída. O efeito social da recessão será grave, podendo fazer aumentar 40% o desemprego na zona do euro (chegando a 9,2%) e triplicando-se nos EUA para atingir 10,4% de seus ativos.24

“Trabalhadores e empresas estão diante de uma catástrofe”, declarou o diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho, Guy Ridder. De fato, a OIT divulgou em 7 de abril um relatório afirmando que “a pandemia está tendo um efeito global catastrófico nas horas de trabalho e nas rendas”. Calcula-se que a crise “eliminará globalmente 6,7% das horas de trabalho no segundo trimestre de 2020 – o equivalente a 195 milhões de trabalhadores com jornada integral”.

Preveem-se perdas imensas em todos os níveis de renda, mas especialmente nos países de renda média alta (7% de perda, equivalentes a 100 milhões de trabalhadores com jornada integral), o que é muito superior aos efeitos da crise financeira de 2008. Os setores mais afetados serão os de hotelaria, restauração, manufatura, venda ao varejo, atividades administrativas e serviços. O relatório da OIT afirma que há grande risco de que a cifra final seja muito superior à projeção inicial de 25 milhões de desempregados.25

Esse cálculo de 25 milhões foi por certo extremamente otimista, pois apenas naquele continente um estudo da União Africana sugeriu a cifra de 20 milhões de empregos supressos e uma escalada do endividamento.26 No que concerne aos Estados Unidos, ela passou de um emprego quase pleno em fevereiro “a um desemprego de massa que deveria alcançar 20% em abril. Em menos de um mês, 22 milhões de empregos desapareceram”, afirma o correspondente do Figaro em Washington.27

O resultado global será um aumento exponencial da pobreza extrema. “Não vejo equivalente histórico à ameaça que a Covid-19 faz pesar sobre as populações mais vulneráveis”, declarou Robin Guittard, responsável pela Oxfam na França.28 Em um estudo divulgado no dia 8 de abril, pesquisadores do King’s College de Londres e da Universidade Nacional da Austrália preveem que a pandemia poderia fazer cair na extrema pobreza meio bilhão de habitantes do planeta, aniquilando os progressos feitos nas últimas três décadas.29

O aumento de mortes pela fome nos países pobres será muito maior que o das vítimas da Covid-19

As consequências desse aumento exponencial da miséria serão desastrosas para a saúde das populações empobrecidas. Até a Organização Mundial da Saúde, a maior promotora de medidas estritas de confinamento da população, reconhece que há uma ligação estreita entre extrema pobreza e má saúde. Em um estudo publicado em conjunto com a OCDE, ela reconhece o óbvio, ou seja, que “os pobres sofrem de uma saúde pior e morrem mais jovens. Eles têm uma mortalidade infantil e materna superior à média, índices maiores de doença e acesso mais limitado aos serviços de saúde e à proteção social”.30

Desse conjunto de fatores resulta que nestes primeiros meses de 2020 já morreram de fome mais de 3,42 milhões de pessoas, numa média diária de 30.800 falecidos. Ou seja, quase cinco vezes mais do que o número de falecidos pela Covid-19 no 5 de abril, dia que registrou o maior índice mundial de fatalidades (6.367 vítimas).

O Programa Mundial de Alimentos prevê que a perda das receitas do turismo, a diminuição das remessas, das viagens e outras restrições relacionadas com a pandemia de coronavírus duplique o número de pobres que sofrem de fome aguda, acrescentando 130 milhões aos cerca de 135 milhões já existentes nessa categoria. “A Covid-19 é potencialmente catastrófica para milhões que já estão presos por um fio”, disse Arif Husain, economista-chefe e diretor de pesquisa, avaliação e monitoramento do PMA.31 David Beasly, Diretor Executivo do PMA, numa entrevista ao The Guardian, exclamou: “Meu Deus! esta é uma tempestade perfeita. Estamos olhando para uma expansão da fome em proporções bíblicas”.32

Estatisticamente, esse aumento da fome aguda, resultado do colapso econômico provocado pelas medidas de confinamento, poderia ser responsável por 30 mil mortes diárias suplementares. Uma parte ponderável dessas mortes teria sido provavelmente evitada se, em lugar de ouvir os aiatolás da OMS e as tubas da mídia, as autoridades tivessem escutado a opinião de outros especialistas que sugeriam medidas de confinamento “vertical” ou “inteligente”, ou seja, a proteção da população de risco (os idosos e portadores de doenças graves) e o confinamento dos contaminados pelo vírus, após a realização de milhares de testes.33

Não se trata de uma alternativa irrealista, porquanto esse plano foi realizado com grande sucesso em Taiwan, na Coreia do Sul, em Singapura, no Canada, na Geórgia e na Islândia.34 Nos três primeiros países asiáticos mencionados e no Japão a cessação de trabalho afetou apenas 10% da população ativa,35 enquanto a eficácia dessa estratégia ficou até agora amplamente demonstrada: o total de mortos nesses quatro países, com uma população conjunta de 257,4 milhões de habitantes, ascende hoje apenas a 489, o que corresponde a uma mortalidade de 1,9 vítimas por milhão, enquanto na Itália, apesar do confinamento “horizontal”, chegou-se à cifra de 391,32 vítimas por milhão (23.660 falecidos), ou seja, 205 vezes mais!

O Conselho Editorial do Wall Street Journal colocou bem a questão na sua edição de 19 de março, três dias após a divulgação das projeções fantasiosas do Imperial College, e antes mesmo do relatório da Universidade de Oxford. Seu editorial intitulava-se “Repensando o confinamento pelo coronavírus – Nenhuma sociedade pode preservar a saúde pública por longo tempo à custa da saúde econômica”.36

SANTANA

SANTANA - Jornalista e Bacharel em Ciência Política

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