COMO A CLOROQUINA AJUDOU A PREVENT SENIOR A CONTROLAR A EPIDEMIA

Como a operadora de saúde criticada pelas autoridades desenvolveu um protocolo eficiente de tratamento da covid-19, a ponto de garantir que a doença está sob controle entre seus beneficiários, integrantes do principal grupo de risco15 MAIO 2020, 17:15

Com um modelo de negócio voltado para o público idoso, a operadora de saúde Prevent Senior foi na contramão da lógica do setor. Enquanto os planos de saúde convencionais enxergam a população idosa como de elevado risco para justificar a cobrança de mensalidades cada vez mais altas, a Prevent Senior resolveu apostar justamente nesse público ao oferecer planos com preço médio de R$ 1.140,00 por mês para pessoas acima de 59 anos. A empresa atua há 23 anos no mercado e conta hoje com quase meio milhão de beneficiários, uma estrutura com oito hospitais próprios e vinte credenciados.

Desde a chegada da pandemia do novo coronavírus ao Brasil, a Prevent Senior ganhou atenção da mídia por adotar políticas não propriamente ortodoxas, como a utilização de hidroxicloroquina no tratamento de pacientes em fase inicial da covid-19, não apenas nos casos graves. A operadora foi alvo de críticas publicamente, até do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta.

Acusada de subnotificação de casos de infecção e de irregularidade na condução dos estudos com a hidroxicloroquina, a empresa rebate as alegações e informa que até o momento nenhum hospital da rede foi fechado. Ainda garante que, entre seus beneficiários, a epidemia está sob controle. 

Em entrevista à Revista Oeste, Fernando Parrillo, de 52 anos, presidente da Prevent Senior, e Pedro Benedito Batista Júnior, 36, médico cirurgião-geral e diretor-executivo, relatam os aprendizados durante a crise, o protocolo adotado com os pacientes e as intrincadas questões políticas. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Fernando Parrilo, 52 anos, presidente da Prevent Senior | Foto: Silmara Ciuffa

Pedro Benedito Batista Júnior, 36 anos, médico e diretor-executivo da Prevent Senior | Foto: Silmara Ciuffa

A pandemia no Brasil chegou antes à Prevent Senior, dado que a operadora conta com uma carteira de 470 mil beneficiários que integram um dos principais grupos de risco. Até o momento, quais foram os aprendizados relacionados ao tratamento de pacientes com a covid-19?  

Batista Júnior: Quando nossos beneficiários começaram a ficar doentes, passamos a analisar os vários estudos realizados fora do país sobre a hidroxicloroquina. Traçamos uma linha do tempo da doença, de um a dez dias, a partir do início dos sintomas. Criamos uma metodologia de estudo científico que permitisse analisar a evolução dos pacientes antes que chegassem a um estado grave. Constatamos que a ação mais eficaz da hidroxicloroquina começa a ser aparente após 48 horas de uso da medicação. Então, precisamos de dois dias para apresentar resposta adequada no controle da reprodução do vírus. O objetivo da medicação precoce é impedir a replicação viral e não deixar que o corpo entre em processo inflamatório agudo. Nós resolvemos antecipar as medidas preventivas antes de esperar o agravamento da doença.

Quais são os procedimentos adotados pela Prevent Senior para lidar com os pacientes contaminados pela covid-19? 

Batista Júnior: Assim que o paciente apresenta sinais e sintomas, fazemos uma avaliação médica via telemedicina, por contato telefônico. Se apresentar os sintomas clássicos, ele é convidado a fazer uma tomografia, coletar outros exames. E existe também a indicação da medicação apenas pelos sintomas clínicos. Nesses casos, checamos o prontuário do paciente para ver se há contraindicação para o uso da hidroxicloroquina. Se estiver tudo em ordem, o médico prescreve o tratamento. O paciente recebe em casa um kit com a hidroxicloroquina e a azitromicina (antibiótico), além de suplementação nutricional com whey protein (proteína isolada) e um imunomodulador para ajudar no sistema imunológico. Garantimos ainda que o paciente receba ligação médica por mais 14 dias para acompanhamento do tratamento — até o quinto dia, ele recebe duas ligações por dia e depois, até o fim do tratamento, uma ligação por dia. É importante ressaltar que, em algum momento da vida, esses pacientes avaliados via telemedicina passaram por uma consulta prévia presencial conosco e a dose prescrita da hidroxicloroquina é cinco vezes menor que a dos pacientes que usam a medicação para tratar doenças como lúpus e artrite. Temos atendido cerca de 100 pacientes por dia utilizando essa metodologia.

Por que a discussão do uso da hidroxicloroquina ganhou tanta repercussão e foi tão criticada, inclusive pela comunidade médica?

Batista Júnior: Muitos estudos científicos estão saindo agora e mostram que a hidroxicloroquina não é eficaz para casos graves. Mas isso nós já sabemos há mais de um mês. Os profissionais também não conheciam a medicação. Se um paciente contaminado liga para seu médico de confiança e ouve dele que nunca prescreveu o remédio, essa resposta vai gerar desconfiança. Mas, se você ligar para um reumatologista, ele vai dizer que sempre receitou a hidroxicloroquina sem pedir nem um exame sequer, inclusive sem necessidade de receita médica para a compra em farmácia.

Fernando Parrillo: Foi um erro o Ministério da Saúde [MS] proibir o uso da medicação na fase precoce da doença. [Em 27 de março, o MS permitiu o uso do remédio em pacientes graves. Em 7 de abril, uma mudança no protocolo do ministério permitiu ao médico prescrever a hidroxicloroquina em qualquer fase da doença.] Houve uma pressão psicológica muito grande em cima dos médicos. Porque o profissional até poderia prescrever, mas a gente sentiu, inclusive aqui dentro da empresa, que os médicos estavam inseguros em receitar, por conta do Conselho de Medicina. [Em 23 de abril, o Conselho Federal de Medicina liberou o uso da hidroxicloroquina no tratamento de pessoas com sintomas leves da covid-19.] Outra questão grave é que não existe a medicação no mercado. Quando saíram os primeiros estudos, nós fomos direto à indústria e compramos tudo o que pudemos. Só que ninguém fez isso na época. Não adianta ir a público e falar que a hidroxicloroquina funciona se o paciente chega ao hospital da esquina e não há a medicação para dar.

É possível que a discussão sobre o uso precoce da hidroxicloroquina tenha relação com o debate sobre a flexibilização do isolamento social?

Batista Júnior: Tudo tem a ver com tudo. É possível que daqui a um mês surja uma solução mais cara, já que um comprimido de hidroxicloroquina custa R$ 1. A medicação que alguns estudos consideram hoje como a mais efetiva no tratamento de pacientes graves custa R$ 10 mil. Existe toda uma situação dos laboratórios, além de diversas questões políticas, sociais e econômicas envolvidas. Por exemplo, a pneumonia é uma doença que se trata no começo da infecção. O que acontece se o médico esperar sete dias para iniciar o tratamento? Claro que o paciente vai piorar. Se estamos diante de uma epidemia que tem um processo de evolução tão característico quanto o de uma pneumonia, se a linha do tempo é tão parecida, por que não tratar desde o começo da mesma forma como tratamos uma pneumonia? 

Fernando Parrillo: O problema é que a discussão se restringiu a casos de paciente em estágios avançados da doença. Porque existe todo um interesse em cobrar por esse tratamento. Se havia uma solução tão simples e barata na frente, por que o Ministério da Saúde não comprou a matéria-prima para fabricar o medicamento? Compra o negócio, salva as pessoas. Em vez de investir em hospitais de campanha para atender o paciente doente, o governo de São Paulo poderia investir menos e de maneira mais efetiva na prevenção da doença.

Em 27 de março, a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo pediu intervenção em três hospitais da Prevent Senior porque a rede teria deixado de informar casos de infecção por coronavírus.  Ainda, a Prevent foi criticada pelo alto número de mortes registrado pela operadora. Qual é a situação hoje? 

Batista Júnior: Houve campanha contra nós desde o início. Todos os laudos epidemiológicos e da Vigilância Sanitária vieram favoráveis à Prevent e não provaram nada. [A reportagem da Revista Oeste teve acesso aos laudos.] Em doze dias, foram quatro fiscalizações e nenhum hospital da rede foi fechado. Já registramos a alta de 735 pacientes com resultado positivo para covid-19 e que precisaram de internação. Além disso, 75% da população idosa que tem plano de saúde na cidade de São Paulo é nossa beneficiária. Temos 80 mil segurados acima de 80 anos, uma população extremamente frágil. Nossa taxa de mortalidade nessa faixa etária é de 8%, abaixo da taxa média divulgada pela OMS, de 15%.

Em 20 de abril, a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) suspendeu o estudo da Prevent Senior com a hidroxicloroquina por suspeita de irregularidades. A acusação é de que a empresa iniciou a pesquisa antes da autorização da entidade. O que os senhores têm a dizer a respeito?

Batista Júnior: É preciso esclarecer que os resultados que a Prevent apresentou à imprensa em 17 de abril não se referiam ao estudo aprovado pela Conep em 6 de abril. O estudo que foi enviado pela empresa e submetido à aprovação da Conep não tem o mesmo tema nem o mesmo volume de pacientes e inclui o nome de outro pesquisador. A Conep acusou a empresa de publicar o estudo antes de conceder a autorização. Só que nós não publicamos o estudo em lugar algum. O que nós divulgamos foi um manuscrito com um levantamento de casos reais em que, dos 632 pacientes, 224 não quiseram tomar a medicação e 412 tomaram a hidroxicloroquina associada à azitromicina. Desses 412, 1,9% ficou cinco dias internado e ninguém morreu. E foram esses resultados que nos motivaram a fazer o estudo para comprovar à comunidade científica que a medicação é efetiva, desde que usada precocemente. Então reforço que o estudo estava em preparo quando veio à tona essa acusação. Agora está tudo em suspenso.

Com a pandemia, qual a situação dos hospitais da rede Prevent Senior?

Batista Júnior: Contamos com três hospitais dedicados ao atendimento de pacientes com a covid-19. Mas não estão lotados. Existe uma margem de segurança inclusive para o caso de um crescimento exponencial da doença. Hoje, temos 102 pacientes entubados e a taxa de ocupação de nossos leitos de UTI é de 80%. O tempo médio que um paciente fica na UTI é cinco dias quando prescrita a hidroxicloroquina na fase inicial. 

Fernando Parrillo: Quando estourou a pandemia, fizemos uma força-tarefa para montar um hospital de campanha em um prédio na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, no bairro do Jardim Paulista [em São Paulo, capital]. Corremos para adaptar cinco andares do edifício que alugamos e viabilizar a estrutura de 532 leitos para nossos pacientes. O fato é que não finalizamos o hospital porque a epidemia, entre nossos beneficiários, está controlada e estamos considerando a possibilidade de desativar a obra. [A reportagem da Revista Oeste esteve no local e apurou que o hospital de campanha está em fase final de acabamento, com a estrutura pronta para receber leitos e equipamentos médicos. De acordo com um dos funcionários, em caso de necessidade, em uma semana o hospital já conseguiria receber pacientes. Veja as fotos no final da entrevista] Temos também outro hospital pronto mas ainda sem data prevista para inauguração.

Existe alguma parceria ou tentativa de aproximação entre a rede pública e a privada no tratamento da covid-19?

Batista Júnior: Nós nos oferecemos para assumir o tratamento na Polícia Militar do Estado de São Paulo. Os coronéis vieram aqui pedindo ajuda: “Nosso efetivo está começando a ficar doente”. Fizemos as contas e concluímos que, com nossa estrutura, seria possível atender  um contingente de 60 mil policiais. Não existiria relação comercial. Nossa oferta seria sem contrapartida. Faz um mês desde a nossa conversa e ainda aguardamos um retorno. Segundo a última troca de mensagens, o coronel está aguardando “ordens superiores”. 

Fernando Parrillo: Compramos respiradores por R$ 50 mil, enquanto alguns governadores adquiriram o mesmo equipamento por R$ 180 mil. Muitos dos cerca de 100 hospitais privados no país estão sem procedimentos eletivos, vazios e com dificuldade para pagar os custos mensais. Por que o poder público não foi atrás desses hospitais para fazer uma parceria em vez de gastar milhões construindo hospitais de campanha? Os caras poderiam ter deixado um legado de hospitais, reformando prédios antigos que estão fechados no centro da cidade, para ser usados pela população pós-pandemia.

Como está a saúde financeira da empresa para suportar o momento de crise em razão da pandemia do coronavírus? 

Fernando Parrillo: Nosso beneficiário continua pagando o plano de saúde. O tratamento para combater a covid-19 é barato. Em março deste ano foram vendidos 5 mil novos contratos e tivemos uma performance financeira melhor que a do mesmo período do ano passado. E não tem por que ser pior. Toda a estrutura é nossa, o custo fixo é mantido. Tivemos mil internações a menos em março do que no mesmo mês no ano passado. Vamos sair mais fortes da epidemia. Como as cirurgias eletivas foram canceladas, não precisamos gastar com próteses, por exemplo. Já as outras operadoras estão com inadimplência alta e perdendo receita porque dependem dos planos empresariais. Com a crise, muitas empresas fizeram demissões e pararam de pagar o plano de saúde a seus funcionários. A empresa que fornece alimentação à Prevent, por exemplo, demitiu 6 mil funcionários que tinham plano de saúde e ficaram sem cobertura. Esse foi um dos motivos de o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta atacar publicamente nosso modelo de negócio. Acho que ele estava com raiva da gente. Nosso modelo é o que mais está performando bem nessa pandemia. Lembro que a filha do ministro trabalha no escritório de advocacia Mandetta Advogados, que tem entre seus clientes a Central Nacional das Unimeds.

Quais as perspectivas para a Prevent Senior no cenário pós-pandemia?

Batista Júnior: Com tudo o que aprendemos com a crise, vamos melhorar ainda mais nossa prestação de serviços. A ideia é trabalhar cada vez mais na prevenção, investindo em programas de atividades com o paciente para que ele vá ao parque, ao teatro, faça aulas de culinária, evitando o hospital. A taxa de mortalidade geral da empresa diminuiu porque as pessoas estão em casa cuidando-se. Estamos aprendendo que, se os pacientes ficam em casa e não vão para o hospital, eles morrem menos. O volume do pronto-socorro reduziu-se 80%, porque nossos pacientes que chegam ao hospital já fizeram uma triagem prévia por telemedicina, receberam direcionamento e, se foram encaminhados para lá, é porque o médico entendeu ser realmente necessário. 

Fernando Parrillo, o senhor viveu um drama pessoal, com a internação de sua mãe, dona Mara Aparecida, de 72 anos. Como lidou com o caso?

Foi tudo muito rápido. Ela foi uma das primeiras pacientes com covid-19 da rede que precisou ser internada e entubada. O caso dela era grave, os pulmões chegaram a 80% de comprometimento. Foi um momento difícil para toda a família. Nos primeiros dez dias, a gente praticamente não dormiu. Mas ela não era a única. Tínhamos vários pacientes na mesma situação, e nossa preocupação era salvar todas as vidas. Iniciamos a terapia com a hidroxicloroquina em minha mãe no sétimo dia de internação. Ela foi a primeira paciente da rede a usar a medicação. Mas já era tarde porque o quadro dela tinha se agravado muito. Durante a internação de minha mãe, meu irmão, que é médico [e um dos donos da Prevent Senior], chegou a reunir a família toda para dizer que o caso dela não tinha mais jeito. Mas felizmente ela passou a responder bem aos tratamentos, a inflamação começou a diminuir, e ela melhorou. Quando acordou, minha mãe pensou que tinha ido só ao pronto-socorro. Nós que contamos toda a história, inclusive o risco de morte. Ela não sabia de nada. Para ela, tinha sido coisa de uma hora.

Fotos do hospital de campanha da Prevent Senior

Parte interna do hospital de campanha da rede Prevent Senior, em fase final de acabamento. A estrutura está pronta para receber leitos e equipamentos médicos | Foto: Paula Leal

Nas paredes, cada jogo com seis tomadas está preparado para receber um respirador e demais equipamentos necessários para abrigar um leito de hospital | Foto: Paula Leal

SANTANA

SANTANA - Jornalista e Bacharel em Ciência Política

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